sábado, 12 de junho de 2010

Bolinho

Estava eu na vitrine da confeitaria. Abri a carteira, tinha uma nota, e, um cartão que eu havia acabado de estourar o limite.
Compulsão.
Tinha que obter aquela porcaria açucarada. Meu médico, o qual eu acabara de sair - a confeitaria era ao lado - dissera que eu estava com a taxa de triglicerídeos muito alta. Mas quem se importa? Um doce não mata ninguém, não é?
Entrei na loja. Tinha um balcão de vidro, com milhões de doces dentro. Parecia coisa de filme, de verdade. Mas lá estava eu, infligindo as leis do regime.
Peguei a nota e comprei o mais bonito de todos, a moça do balcão me deu o troco, mas eu não me importei com o tal dinheiro, e sim, com bolinho da morte.
Redondo, delicado, com detalhes em espiral no meio, espirais azuis. Bolinhos de arco-íris, como eram chamados, uma loucura, uma doçura.
Abocanhei. Meu corpo se arrepiou e tudo parou, ficou preto em seguida e me lembro de poucas coisas. Lembro-me do barulho de uma ambulância, pessoas gritando, espetadinhas desagradáveis no meu braço.
Mas tarde estava eu deitado em uma cama no hospital do centro da cidade. A enfermeira me disse:
-Senhor, tome cuidado com o que você come, você quase morreu. - Ela parecia preocupada. Se retirou do quarto. Quando eu olhei pro lado, la estava ele, abocanhado, me esperando como uma criança querendo brincar.
Com um pouco de força me sentei, foi então que reparei o copo de água suado ao lado dele. Estiquei meu braço e hesitei, não sabia se era melhor a água, límpida e pura, ou se optava por aquele pedaço de morte. Desisti e peguei o bolo. Me apressei ao mastigar, mas o doce dissolvia na minha boca e a cada bocada eu me sentia mais estranho. Novamente senti meu corpo arrepiar e movimentar ficou difícil. Tentei alcançar o copo de água, mas tudo que consegui foi derrubar a bandeja, estilhaçando o copo com água e atraindo enfermeiras nervosas e preocupadas.
Elas tentaram de tudo, mas tudo que consegui foi permanecer deitado ao chão, elas gritavam por ajuda. Eu, só observava o doce arco-íris no toque dos meus dedos. Fechei meus olhos e sorri sem mostrar os dentes. Era tarde, mas pelo menos, ela era doce.