quarta-feira, 9 de julho de 2014

Metamorfose

“Era intravenosa. Era audaciosa. Suave e fresca. Corrosiva. Vívida e límpida. Eu só queria beija-la.”
                Oscar era um jovem de 30 e poucos anos. Cabelos começando a grisalhar, e possuía toda a cobiça de alguém que deseja ser feliz na vida. Trabalhava numa loja de conveniência perto do cemitério de uma cidade pequena. Cidadão de bem. Alguns diriam até pontual demais, e até devoto demais. Devoto ao que? Não se sabe, nem nunca se saberá. Reservado, até demais. Mas não tinha segredos.
          Querida Helena,
     Sinto muito sua falta. Ouvi dizer que abriu uma loja nova de um tal de Mr. Ciganus. Vou ver se essa semana passo lá para ver como é. Parece ser algo meio... místico... sei lá. Não entendo dessas coisas. A vida continua na mesma. O prefeito ainda não libera mais verba para as obras do cemitério, a lojinha luta para se manter. Meu patrão esta cada vez mais gagá e me xingando de coisas novas. E minha saudade por você só aumenta. Escreverei em breve.
      Att,
      Oscar.
          No seu dia de folga Oscar abdicou-se dos afazeres domésticos e foi a tal lojinha do Mr. Ciganus.
        - Boa tarde, jovem. – Disse um homem careca de barbas longas e olhos pequenos escuros e de vestes laranjas pouquíssimo usuais.
          - Boa tarde, vim dar as boas-vindas. – respondeu Oscar tímido.
          - Eu sei. Obrigado. Por que não se senta? Então, diga-me, o que deseja?
          Oscar sentou-se e pôs-se a refletir profundamente enquanto o senhor à sua frente sorria-o. A reflexão se estendeu tanto, que o senhor levantou e fez duas xícaras de chá. E após se sentarem ambos sorveram calmamente. Até que algumas horas depois Oscar encorajado por seu desejo falou.
            - Já sei...
            - Diga então. – Disse o senhor interrompendo.
            - Eu desejo... desejo... desejo poder ficar junto de minha amada novamente.
            - Helena?
            - A conhece?
            - Não... Mas atenderei seu pedido.
            - O que tenho que fazer?
           - O homem mais rico da cidade. Ele tem como te levar a ela. Basta achar a pequenina chave da casa dele no vaso da entrada. Esgueirar-se pelo corredor, pegar o cordão na sala de estar que e correr para onde seus instintos mandarem.
          Oscar assentiu calado e caminhou de volta a sua casa. Imediatamente papel e caneta dançavam criando letras.
            Querida Helena,
     Hoje serei breve. Me desculpe, mas o Mr. Ciganus disse como poder ficar junto de ti novamente. Sabe como é, desde que você se foi, nunca mais fui o mesmo. Sinto sua falta e choro todas as noites, mas isso a de mudar. Até breve.
      Att,
      Oscar
      Ao pisar no jardim do prefeito, Oscar sentiu seu corpo tremer, seus pelos cresceram avermelhando-se e sua visão mais aguçada para a escuridão da noite. Sem entender muito bem passou pelo guardas que trocaram olhares com ele, e só assentiram falando o quão estranho ter uma raposa vermelha naquele local. Mas nada fizeram. Ele continuou andando até chegar na porta principal e pegar a chave. A mesma tremedeira, o jogou de volta para o que era antes, agora ele estava bípede com a chave em mãos porém não se sentia constante naquela forma.
            Aventurou-se a pôr a chave na fechadura e percebeu sua pele escamando, assim como uma cobra. Quando a porta terminou de ranger, ele, peçonhenta, esgueirava-se a dentro para achar o cordão. Quando o achou, sob a forma humana, retirou-o do lugar disparando o alarme. A adrenalina correu suas veias tão rápida que era intravenosa, corrosiva, vívida e límpida. Ele percebeu pelo reflexo das vidrarias próximas que era um guaxinim, e sagazmente precisaria para sair vivo da luz ressoante vermelha. Correu e correu para onde seus pés o guiaram até encontrar um homem portando uma arma. Não era um segurança. Era o homem mais rico da cidade, o prefeito, aquele que o concederia seu desejo.
            Sob ação do medo frágil da forma humana, correu na direção oposta. Suas roupas já haviam se esvaído em meias tamanhas transformações. Já não se reconhecia e só temia a morte. Correu e correu. Desejou ter asas, mas o disparo somente o remeteu a pássaros voando para longe. E no meio das costas uma dor estonteante o amordaçou. Paralisado, caído, permaneceu.
            Alguns minutos se passaram. Uma brisa suave e fresca soprou, e com ela o desejo foi sucumbido. Ele levantou os olhos e lá estava ela. Audaciosa como no dia que o havia deixado, Helena. Ela o deu a mão, e então eles se abraçaram calma e longamente.
            Ele ameaçou falar e ela tocou-lhe os lábios.
            - Não diga mais nada.
            - Eu só queria beija-la.

            E num sutil toque de lábios os dois desapareceram em meio a brisa daquela noite estrelada e de luto.

2 comentários:

  1. Um dos melhores. Ansioso para ler o primeiro da série Atlantis.

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    1. Brigado!!!!!!! Atlantis já ta pronto, espero que goste também!

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