quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sentidos

Estava no corredor, procurando as chaves para entrar em casa após um longo dia de trabalho. Depois de lutar com minha mochila encontrei as malditas. Foi outra luta para achar a chave certa da porta, mas logo encontrei-a e abri. Entrei em casa. Estava tudo apagado, liguei as luzes.
A iluminação toda diferente, com lustre baixos e algumas luzes meio focadas pela sala, estilo as luminárias antigas. Larguei a mochila no chão. Estava sozinho em casa, digo, sempre morei sozinho... pelo menos desde meus 23 anos. Tenho 25 hoje. Passei pelo som e o liguei. Olhei meu bumbo. Não tinha tocado no meu instrumento musical a muito tempo, acho que me recordo dele somente de antes da mudança, estava bem empoeirado. A musica tocava bem devagar. Era um jazz gostoso, mas ainda faltava alguma coisa.
Abria gaveta e puxei o maço de cigarro junto a um esqueiro. Saquei o maldito. Não me importava o sabor, nem o mal que aquela droga faria, queria fumaça no ar. Sempre achei que aquela dança aleatória no ar combinava com um belo som de um saxofone.
Acendi o cigarro e comecei a fuma-lo. O jazz entrava pelos meus ouvidos e ecoava pelo resto da casa fechada. Sentia a vibração no ar. Me deixando meio anestesiado.
Terminei meu cigarro com um último bafo e respirei fundo. Sentia a fumaça entrando pelas narinas e corroendo todas as partes de minha traqueia, a dor na garganta voltava. Minha rouquidão começava a se manifestar. O cheiro era forte, mas eu não me importava com isso. O gosto era bom, pelo menos no fim. Tabaco puro, uma edição limitada com um filtro diferente. Lindamente revolucionário, extremamente odiado por todos.
Joguei a ponta fora junto com as guimbas recentes. Peguei meu bumbo e soprei poeira sob ele. Ela correu do meu sopro se espalhando no ar e no chão. Depois de uns tapas no couro áspero, bege, fortemente esticado. Senti a fibração subir pelos cabelos de meu braço até tocar meu coração ferido.
Ao fundo eu procurava ver algo que não conseguia, mas sabia que estava lá. Meu coração batia fraco... meu cansaço estava mais forte. E mesmo com muita vitalidade, ou cafeína, ele era idoso, frágil e quebradiço.
Mesmo com couro áspero visivelmente esticado a força, a fumaça pairando no ar secando meu nariz, o jazz vibrando nos meus tímpanos, o gosto do tabaco nas minhas papilas e eu vendo isso tudo. Faltava o principal, você.
Então você veio, lentamente sem dar pistas. Me guiou até a cama como um cão guia seu cego, me deitou e beijou minha testa. E de olhos fechados, vi você sumir, como uma alucinação sem sentido dos meus sentidos confusos.
Meu dia tinha acabado ali.

2 comentários:

  1. Oiiie, moçinho, vim retribuir a visita no AB, e, conhecer o seu mundo.....Mas, que bonito sua escrita. Quantos "sentidos" lhe levaram à estas palavras?!! Adorei ler. E, pensar que somos tão efêmeros ao ponto de nos transformamos em pura fumaça....#ficaadica #sentidosliterarios

    Rytta Nunes - acheiebloguei.org

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olááá Rytta, que bom que gostou. O escrever é mágico por causa disso, viajamos no que escrevemos. Realmente, somos efêmeros se pararmos para analisar. Obrigado!
      Abraços.

      Excluir