sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Delicadeza

Tudo começou em uma quinta feira, dia vinte e três, o ano era 2009. Um dia nublado, conveniente a não levantar da cama. Um radio empoeirado repousava silencioso sob uma mesa madeira desgasta pelo tempo. Quando já passava da metade do dia, a porta se abre, e dela surge ela, dócil, amável, esplendida como sempre fora. Os olhos me fitaram na cadeira com meu formato, e as mãos me afagaram a cabeça.
Ela tinha entrado carregando sua bagagem de praxe - uma mochila e sua bolsa branca amarelada com suas parafernálias - mas com somente utensílios dela própria. Ao parar próxima a nossa mesa empoeirada esticou o braço, o ligou e olhou para o jardim do lado de fora, repleto de flores que combinavam com o aspecto vintage que nossa casa tinha - que eu sempre detestei.
De leve as gotas de chuva sob as folhas começaram a cair uma a uma, molhando com delicadeza a terra, ela sorria mais em dias nublados, ela era o sol. 
Sabia que o radio não tocava imediatamente, então saiu da casa e foi andar sobre a calçada esburacada e cheias de sulcos - nunca entendi esse amor dela por natureza, tão pouco o apresso pelo cheiro de chuva.
Parada no sinal, olhos atentos acompanham a mudança das cores piscando lentamente. A rua vazia de pessoas, mas cheias de carros andando no ritmo cortante, ela atravessava a poeira levantada dos carros, sem medo nem olhar. Ela achava que a vida era efêmera demais para ter carros, por isso andava tudo a pé - inclusive em dias chuvosos.
Ela me deixou sozinho, de novo. Ela me deixou ouvindo a música que me lembrava a ela. Ela me deixou marcas que como nossa árvore tem, ficarão cicatrizes. Por que ela não viveu um pouco mais? Hoje não sorrio, não gosto do sol. Hoje não sou árvore vívida, nem terra úmida. Hoje sinto minha delicadeza, como se ela não tivesse deixado, mas tivesse se tornado parte de mim.

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