sábado, 20 de dezembro de 2014

Equilíbrio

  Acordei de manhã, pensando que nada importava. A escuridão reinava no meu território - como sempre reinou - impetuosa e envolvente, mas pequeno feixes de luz lutavam para iluminar dentro do ambiente que eu estava como uma aura branca refletida na parede por debaixo do tecido do blackout.   Era um tecido empoeirado, além de pesado. seu cheiro era de plástico velho, tão velho que o branco estava amarelado.
  Eu tive de hesitar em mexer nele, afinal não sabia o que tinha do outro lado, não sabia se seria um mundo compreensivo ou obscuro, não sabia se seria luz ou escuridão, não sabia de nada, nada. Tirei palavras de força e coragem do fundo de mim, alguém lá dentro sabia que tinha que levantar e não deixar as 8 pernas tecessem teias em mim. Andei até a cortina e posicionei minhas mão sobre o tecido empoeirado, apertei até as unhas ficarem brancas para deixar minhas marcas ali, e, com toda força puxei para os lados tentando abrir caminho - como quem joga pedras pesadas para o lado. Era como pedras. A luz entrou em feixes gentis e suaves e retos, - não era ruim, nem machucou meus olhos - confesso que com medo, fechei meus olhos sem saber se minhas pupilas adaptariam rápido ou não, foram alguns anos no escuro. Mas agora sabia quem era, sabia de coisas que me agrediram fortemente antes.
  As partículas de poeira dançaram tristes e felizes e meu nariz coçou. O quarto, localizado no segundo andar de uma casa - percebia-se pela altura que a janela estava do chão.
  A rua em frete a minha janela era de paralelepípedos, não tinha muitas casas, e também tinham muitas árvores. Novamente palavras de coragem dançaram no meu lábio, para fazer coisas jamais vistas pelo ser humano, ou de pelo menos ser quem eu almejava, quem me fazia feliz. Abria janela e o vento gelado do inverno com gotículas de orvalho umedeceu meu rosto quebradiço, entrava pela minhas mangas compridas, arrepiando cada pelo do meu corpo. Tentei subir, mas palavras que tinham me dito de desencorajamento me fizeram fraquejar. Após me recuperar lá estava eu, de pé no para peito da janela, segurando no vidro. Sentindo a luz do sol, aquela luz quente.
  Peguei impulso, depois de tatear o vidro algumas vezes, pulei e lá estava eu, sobrevoando meu quarteirão. Bastantes verdes, gente fazendo afazeres dos mais variados. Dor, sofrimento, mágoa, sabia da existência, mas estavam perdidos em algum lugar - e não seria eu quem os procuraria.
  Não tinha de me importar. Chegara a hora de realizar o meu sonho, realizar coisas que sempre tive medo por causa do que diriam. Finalmente estava no equilíbrio que sempre aspirei - não como uma balança, mas como algo ou alguém melhor. Eu estava no ponto certo.

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