quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Viagem ao negro 2

   Sentado naquele banco gelado, ele triste não via escapatória senão encontrar com a morte. Pensou em se matar algumas vezes. Pensou em dar adeus a vida. Pensou em tantas coisas, que o dia já estava chegando ao fim e o telefone tocou. Sua mulher preocupada fez as perguntas sobre a consulta e ele contou, para a surpresa dele, ela não chorou, ao invés, foi forte e o incentivou, e disse palavras de fé. Nada que fizesse ele querer viver mais.
  Doença maldita. Ele atingido, caminhou até em casa sentindo o inverno chegar aos poucos em forma de brisa. Antes de passar o portão de casa sentou na escadinha e chorou sozinho, calado, sem ruídos. Passou o portão e foi se banhar. Mesmo tentando comer algo, resolveu deitar na cama e dormir em uma tentativa talvez frustrada de sonhar com sua falecida mãe, sua esperança, até seu pai.
   O dia demorou para amanhecer porque ele acordou algumas vezes assustado e chorando. Acordou antes do despertador. E tomou um café sem açúcar, não queria sentir doce, não quis ouvir música, não quis falar com ninguém no trabalho. Simplesmente não quis mais nada. Nada.
    Pensou em comprar um faca nova e matar-se. Mas entre um pensamento e outro surgiu uma luz na televisão do refeitório. Em uma reportagem, o âncora anunciou que mais alguns países aderiram a luta contra a maldita.
  Pegou o telefone e ligou para o setor de teleatendimento do comitê de saúde internacional. Funcionava das 9 da manhã até as 4 da tarde. Correu até lá.
- Boa tarde. Gostaria de me inscrever no trabalho voluntário. - ele disse à atendente. - Faço qualquer coisa.
   Ele anotou o nome dele a assinou um termo de compromisso. Voltou então para casa sorrindo, diferente do dia anterior.
   Chegou em casa e foi recebido pela mulher animada. Conseguiu comer tranquilo, poderia ter os dias contados, mas não deveria perder a garra contra a maldita. Se deitou para tirar um cochilar e sonhou com sua mãe.
- Não desista, meu filho. - ela sorria afavelmente. - Você conseguirá, acredite. As vezes temos que fazer sacrifícios.
- O que quer dizer com isso, mãe? - ele perguntou e não obteve resposta. - Quer que eu seja kamicase?
- Meu filho, isso que você tem, é apensa um empecilho da vida, eu acredito em você para superar esse problema, acredite também.
   O despertador tocou. Em um pulo, ele tomou um banho e foi tomar o café com sua mulher e ouviram na televisão que pesquisadores iriam procurar A Cura fora do planeta e estavam recrutando ajudantes, pois os astronautas não estavam interessados nessa viagem que poderia ser sem destino e sem roteiro. Ele olhou para a televisão com os olhos brilhando e falou com ela.
   Correu para o centro do comitê e se voluntariou, era o primeiro. O único. O corajoso.

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