sexta-feira, 31 de julho de 2015

Estrelas

Estrelas
Que ali brilham
Para ti

Mostram a
Verdade nua
E crua

Das Rosas, 
Violetas e
Lírios

Qu'aspiram
O bem e o mal
De hoje

Pois te
Ver me mostra
O andar

Felino
Caminhando por
janelas

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Não deixe que a felicidade vire doença

As pessoas estão cinza. Me preocupo com o dia a dia porque vejo as pessoas reclamando, sérias esperando em filas, com medo, sem vontade de viver, sem nem entender o que acontece. Mas para isso tudo existe um motivo, um único alvo: A felicidade. Colocar como objetivo ou meta, torna tudo, sem a mínima exceção, chato e sem brilho algum, porque paramos de ver as coisas como elas são, e nos frustramos por causa disso.
A frustração acaba quando vemos algo pequeno como aquele diamante precioso que sempre desejamos. Não é pensar pequeno, é parar de pensar que para ser feliz é preciso ter aquela promoção, ou ter o carro do ano, ou até o celular de última geração com todos os aplicativos.
Mas infelizmente, o ser humano não está preparado para lidar com um grande não. E isso gera infelicidades das mais variadas quando a própria vida diz que não é a hora. Você é o que você é e isso basta, não inveje o outro porque ele tem mais.
O problema real é que parece inalcançável - tirando as exceções - e não vemos porque não queremos ver, que nós não alcançamos porque não vemos o trajeto. E quem vê sofre um segregação das mais severas. Eles são infectados com a "doença" da felicidade e sorriem com o que já acontece. - e não adianta dizer que elas não pensam grande.
Não deixe que a felicidade vire doença. Porque ela é a solução, o caminho e a luz que todos precisam. Se infectem com esse vírus e espalhem a ideia oposta. Até mesmo os vírus sabem que no momento que muitos estão morrendo por causa daquela doença, ele se torna menos letal, em ordem de não acabar com seus hospedeiros. Se eles conseguem ser inteligentes, nós somos ainda mais. Façam da tristeza, uma doença.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Coco

Estava no ponto de ônibus como qualquer pessoa. Passou um que não servia. E outro. E outro. Depois mais um. Onde estaria o diabo do meu ônibus que não aparecia nem por um decreto?
Revoltado, caminhei mais dois quarteirões para ter outra variedade de ônibus. - morar longe do trabalho não é fácil, acredite -. Pra minha sorte - ou azar - moro num local que pegando uma condução, chego onde eu quero.
Peguei o bendito... Um roubo, mas paguei. Com muita sorte consegui um local para ficar em pé, porque naquela hora, não existe lugar para se sentar e esperar a viagem passar. Depois de encarar uma hora de pé, balançando na dança estranha que é ficar de pé, consegui um lugar.
Sentei aliviado, mas foi então que o ônibus deixou entrar uma senhora que tinha um dos olhos totalmente branco por causa da catarata avançada. E pelo que parecia ela não tinha dinheiro para pagar a cirurgia porque contou as moedas para pagar o ônibus.
Ela chamou minha atenção por causa da calma que fazia tudo e do bom dia que ela tinha dado para o motorista. Parada na roleta mesmo, ela esperou a viagem - que era longa.
Pouco antes da mudança do trajeto muitas pessoas saltaram para pegar o metro e ele esvaziou. Eu sabia que poderia continuar minha viagem e então me sentei na janela, vagando o lugar do meu lado. Ela sentou pedindo licença e sorriu para mim. O ônibus entrou no túnel e ela começou a falar.
- Na maioria das vezes a vida está testando a gente... - a voz dela era como uma voz de uma senhora de idade.
A cabeça dela mirava a frente.
- Mas é difícil... - eu respondi cabisbaixo - Não acha?
- Não... Sabe, se tem uma coisa que aprendi, é que a gente complica sem motivo. A gente não entende propósitos maiores, a vida não é uma mangueira que a gente só colhe frutos.
Fez uma pausa e tocou meu braço.
- Tudo pode estar ruim. Tudo pode estar desencaminhado. Tudo pode parecer turvo, acredite sei como é ver as coisas turvas. Mas amei meu pai, mesmo ele chegando bêbado e me batendo. Amei minha mãe, mesmo ela me abandonando com aquele alcóolatra. Amei meu irmão, mesmo que ele usasse drogas pesadas me chamasse de idiota por tentar ajudar a ele próprio, e não deixar ele se suicidar. - ela fez mais uma pausa e depois continuou tirando uma mexa de cabelo da frente do olho que enxergava normalmente - A vida, meu caro, é uma belo e imenso coco. Ela é dura, difícil, cai na sua cabeça de repente sem você esperar e te deixa tonto, mas com as armas certas, a gente aprende que tem sim um suco que podemos tomar, que podemos saborear e sorrir. As vezes o suco não é tão doce, mas ela te trará sucos melhores se você souber tirar da carapuça dura dela.
Eu estava com uma lágrima nos olhos quando ela acabou de falar.
- E como você sabe disso tudo? Parece que me conhece tão bem...
- Eu vejo isso na vida. - ela apontou para o olho branco - Agora vá com Deus e aproveite o seu suco. - ela disse e desceu do ônibus assim que o ônibus saiu do túnel.
A máquina de transporte continuou o trajeto se passou em frente a praia, onde vi vários coqueiros altos balançando com a brisa. Agradeci, talvez aquele fosse um dos meus sucos.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Missão dos Ciclos 5

- O que são essas medalhas que você tem na mão? - Daniel criança perguntou para o mais velho depois de acordar.
- Pode chamar de lembretes, ou prêmios por ter feitos coisas boas. - o mais velho respondeu entendendo quase tudo que se passava.
- Vou ganhar uma dessas?
- Talvez. Depende de você.
O menino se levantou e viu a bandeja com frutas que de alguma forma sabia que era dele. Então começou a comer.
- Sabe... Sei dos seus problemas... - o companheiro falou.
- Do que você está falando? Dos besouros? - o companheiro mais velho fez que sim e ele continuo - Estou realmente chateado por causa disso, se pudesse sumia de vez só para saber o que eles acham disso.
- Eles sentem sua falta. Principalmente sua mãe e Judite.
O menino assentiu mastigando o pedaço de manga e depois falou.
- Foi você que me salvou do acidente de carro?
Daniel, o companheiro mais velho não se lembrava de nenhum acidente de carro e então a voz de Jardel soou na sua cabeça uma última vez.
Agora é o momento que você pode influenciar as decisões dele. Essa a única chance que você terá. Se conseguir, receberá uma medalha com seu próprio nome e poderá mudar de nome e assumir o papel de companheiro, mas caso não consiga, sua missão cíclica encerra.
- Quem sabe? - fez uma breve pausa vendo a criança comer - A gente sempre fica chateado com essas coisas não é? Mas posso te falar, isso tudo passa, você terá momentos bons depois. Venha comigo, sua primeira missão vai acontecer agora.
Eles então foram projetados no local que Daniel mais velho sabia que era o episódio do gato. A versão dele criança não se importou em já pedir para salvar o gato e então entendeu a importância das suas decisões. Logo depois, o episódio de Judite aconteceu, mas eles viam de dentro da casa dela. A criança relutou, mas tomou a decisão sabia e ganhou uma medalha.
O companheiro se sensibilizou ao ver aquilo tudo e decidiu ir para a decisão do cometa. Explicou brevemente o que aconteceria e depois deixou a criança escolher.
- Quero... Quero... Salvar todo mundo. Que esse cometa desapareça e nunca mais esse tipo de coisa aconteça com o nosso planeta salvando todos os meus amigos, minha mãe e Judite. Quero poder voltar para eles.
O Daniel adulto estalou os dedos e tudo aconteceu. A criança via o brilho acontecer e então perguntou.
- O que está acontecendo?
- Você mudou o ciclo, dessa forma, poderá voltar para sua casa e viver feliz. Parabéns.
- Posso saber seu nome antes?
- Jardel. - ele disse depois de hesitar. Preferiu mudar o nome para a criança achar que não era a mesma pessoa.
Daniel criança voltou para casa e correu para abraçar a mãe e brincar com os amigos como se nunca tivessem existido os besouros. O novo Jardel então sorriu e entendeu o propósito daquilo tudo e sorrindo desapareceu na luz.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Encontrei

Fim de ano... acho que muitas pessoas adoram as férias por causa do tempo vago que podem fazer tudo que desejam, ler os livros pendentes, não ter que estudar para graduações, não ter nenhuma obrigação - nenhuma mesmo -. Mas não pra mim, eu sou o que chamam de Workaholic, ficar sozinho em casa não é bom para quem é viciado em trabalho. Meu psicólogo tirou férias - se ele consegue, eu consigo também.
Como sou viciado em leitura - começo a pensar que para um jovem adulto tenho muitos vícios... Mas pelo menos eles não são nocivos - li todos os livros que tinham pendentes. Detesto praia - mais um motivo para ficar preso dentro do trabalho -. Vídeo games não me atraem tanto - talvez por eu jogá-los ao ponto que em uma semana acabo com o que é possível ser feito. - Realmente acho que tenho vícios demais para minha idade.
Foi por isso que entrei no bar que tinha aberto para o verão. Por ser novo ainda estava meio bagunçado, mas como o dono precisava da grana, abriu e arrumava tudo ao mesmo tempo - me identifiquei - sentei-me ao balcão e pedi uma dose do uísque da casa - não que quisesse me tornar alcoólatra, isso de fato não tinha problemas. Mas quis tomar uma dose para relaxar.
O garçom - acho que se chamava Jarbas - me serviu com as acrobacias e dei a primeira golada. Ele serviu outra e perguntou se eu era forte para aquilo. - não queria carregar ninguém para fora dali hoje - parei e olhei em volta até que vi um homem que parecia ser mais velho que eu sentado a poucos metros de mim. Ele segurava um copo com um líquido transparente - não dava para identificar se era água, cachaça ou vodca - e por isso me sentei ao lado dele.
Ele emanava uma energia diferente do resto do bar - não que eu seja sensitivo ou seja medium, mas ele também não era tão comum como eu.
- Muita coragem em beber vodka pura. - puxei assunto. Ele riu mostrando os dentes meio amarelados e ajeitou a blusa bege e depois passando a mão na bermuda sem bolsos marrom. Quem usa bermudas sem bolsos hoje em dia?
 - Por que não viajas? - sério que ele usou a segunda pessoa do singular? Que homem exótico... - A propósito é água isso aqui. - enfim sorriu de novo.
- Porque... - não tinha nenhuma resposta.
- Vai te fazer bem. Compre um livro na livraria ali ao lado - apontou na direção de onde eu sabia que tinha uma livraria e eu vi que suas mãos tinham machucados.
Fiz uma pausa e analisei a figura afável que estava diante de mim. Não falo com estranho, mas com ele falei, não disse nada sobre minha vida, e ainda recebi um conselho que pareceu vir de um amigo de infância.
- Você é... Nos conhecemos de algum lugar? Não que eu esteja interessado em você, mas sua sugestão...
- Sou alguém como você. Gosto de ajudar as pessoas com meu trabalho e reparei que você ainda está de crachá, logo, deduzi que estava tenso com trabalho, porque sei que essa empresa é longe daqui. Ninguém, mesmo com a maior benevolência viria tão longe para entrar nesse bar. - ele disse sem ser rude, porém tinha me interrompido e feito uma analise.
Assenti calado e me sentei ali mesmo ao lado dele. Ele pareceu sentir algo e falou.
- Não tente salvar tantas pessoas de uma vez, as vezes, seu barco tem um limite. Respeite seu limite.
Ele se levantou, pagou a água e saiu caminhando porta a fora com calma emanando uma luz metafórica. Então Jarbas falou.
- Senhor? Está tudo bem? Você se levantou e começou a falar sozinho, estava vendo alguém?
Então me liguei que o quer que tenha sido, poderia não ter sido real. Uma alucinação dentro de um bar? Talvez.
Todavia quem quer que tenha sido, acalmou as borboletas do meu estômago, e de quebra, me deu uma coisa que não tinha pensado ainda. Resolveu meu problema - quase um milagre - fiz como ele tinha dito: paguei a conta, comprei um livro na livraria - que depois descobri que era um sebo - e fui para casa comprar uma passagem para o local que minha família morava, sentia falta deles, porém não queria aceitar isso. Eu agora era diferente, era melhor.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Missão dos Ciclos 4

- Se você fizer a próxima tarefa com habilidade poderá ganhar a quantidade de medalhas que lhe falta para o grande prêmio.
- E qual será? - o menino estava mais interessado do que de costume.
- Venha comigo. - Jardel estalou os olhos e eles apareceram numa sala.
Daniel olhou em volta e percebeu vários computadores com números complicados na tela e um grande círculo. Ele se aproximou e leu: ASTERÓIDE! Na mente dele tentou se lembrar o que a palavra significava. Olhou para Jardel e perguntou o que era. O companheiro então falou.
- É um cometa.
- E está vindo para a Terra? - fez uma pausa e viu Jardel movimentar a cabeça positivamente.
Ele agora precisava pensar num plano. Então uma sirene começou a soar e ele ficou nervoso. Olhou para Jardel e falou.
- O que eu faço? - não teve resposta - Quero que um lixo espacial atrase essa coisa! - disse sem pensar.
Jardel fez uma cara de lamentação e na tela o asteroide ficou ainda maior pois com o lixo espacial ficou ainda maior. Ele começou a chorar e então falou gritando.
- Quero ver quem vai ser prejudicado com a queda dele!
Jardel então mostrou, os amigos que tinham colocado os insetos no estojo e caderno dele. Mostrou Judite e a mãe dele conversando na praça. De primeira ele ficou tremendamente irritado e fechou os punhos, mas a ira cessou quando viu Judite sorrindo para a mãe dele e tomou a decisão.
- Quero que o cometa...
Então ele foi interrompido ao ver o olhar curioso dele na janela na direção do cometa em forma de cotonete.
- Quero me salvar! - ele disse sem hesitar. - Mas quero que todas as pessoas que conheço sejam salvas por causa dessa decisão!
Jardel então sorriu e começou a emitir um brilho tão forte que Daniel levou as mãos aos olhos e quando abriu novamente se viu envelhecido no reflexo no chão da sala branca que estava com uma cama.
Deitado sobre ela, viu sua figura mais jovem e olhou em volta e viu Jardel sorrindo para ele.
- Parabéns pela decisão mais sabia que você já fez. - e sumiu no ar soando a voz que se dissipava no ar. - agora vá e ajude ele que um novo ciclo começará. Você se tornou um companheiro de luz agora, continue esse trabalho que você sabe que é capaz de fazer.
Daniel sorriu e colocou as mãos no bolso tirando a última medalha das suas missões e então esperou a versão dele mais jovem acordar.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ritmo gostoso

Ela entrou na pista de dança desviando dos drinks e das pessoas tontas. Era tarde e muitas pessoas não sabiam nem mais quem eram, só sabiam que no dia seguinte teriam ressaca e por isso aproveitavam a noite como se fosse a última. Tomando cuidado para não caírem nela, ela desviou de mais uns bêbados, até que um fã apareceu.
- Não acredito! Samanta Cley na pista de dança? - ele falou mostrando que estava em algum grau longe do sóbrio.
- Não querida. To no meu camarim! - Samanta disse com sua voz anasalada e saiu andando até subir no palco.
Cada degrau foi pisado com calma e um segurança de terno a recebeu.
- Deixa que eu te acompanho. - ele a deixou passar enquanto falava e então seguiu.
Entrando no camarim.
Cley começou a falar.
- Detesto isso de chegar depois da hora, nunca respeitam espaço. - ela comentou dos fãs e de coisas largadas na penteadeira.
Começou a mexer nas maquiagens importadas e tirou a peruca para começar a se preparar para o show.
- São seus fãs, deveria tratar com mais respeito.
- Tem razão, mas mesmo assim... São uns idiotas! - ela já estava maquiada, mas precisava retocar e trocar de roupa.
- Qual será a performance de hoje, senhorita?
- Ritmo gostoso. - ela colocou a peruca laranja estilo egípcia. - O que acha?
- Acho que você vai mandar muito bem, como sempre. - ele fez uma pausa e continuou - Deixe eu perguntar, poderia dormir comigo essa noite?
Samanta ficou surpresa, porém emocionada. Sempre teve um sonho de poder ficar mais próxima de Felipe, o segurança da boate que ela começou a frequentar quando começou a trabalhar como Drag Queen.
- Seria um prazer. - ela disse saindo para o palco.
O DJ da noite parou a música e todos olharam para o palco curiosos. Ela colocou a perna para fora da cortina e começou a música e as cortinas abriram. Ela piruetou e com um jogo de braços de um lado para o outro levou a platéia ao delírio. E para o clímax da performance todas as luzes da boate apagaram e acendeu umas quatro lâmpadas no palco em forma de quadrado com cortinas de fumaça sendo lançadas com feixes de luz multicoloridos.
Ela entrou no quadrado e bateu o pé subindo uma tela de vidro subiu formando uma caixa. Então uma fumaça começou a sair dos cantos da caixa, quando a fumaça passou ela não estava mais na caixa arrancando aplausos dos mais escandalosos da platéia, encerrando a performance com chaves de ouro.
Dali em diante a noite ocorreu bem e ela foi para casa acompanhada por Felipe, que já estava sem terno. Chegando em casa removeu toda a maquiagem, e se deitou para dormir realizada.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Só por uma noite

Eles disseram para eu correr para debaixo do rabo da saia da minha mãe. Sabiam que tinha medo, eu tremia toda, dos pés à cabeça.
Quando toquei no vidro verde da janela do cemitério, o silêncio tomou conta do meu corpo e do ambiente etéreo e sinistro - como sempre eu temi -. Mas graças aos meus problemas de foco me salvaram e pude respirar um pouco aliviada, até lembrar que ela, minha querida mãe, não vivia mais e tinha que ser forte, porém não conseguia. Achava que não conseguia.
Ouvia sinos e risadas tristes naquela noite de verão quente com chuvas rápidas e fugazes, que não chegavam a alagar nem as menores das poças, quando vi minha mãe pela última vez. E eu ouvi a voz dela, tão clara como o dia:
Você tem que ser forte, Helena. Só por uma noite!
Então ela adentrou na sala para nunca mais sair. Se não fosse pelo ambiente branco e o cheiro de desinfetante eu saberia que tiveram muitos mortos naquele lugar, afinal era um hospital.
Temia a morte. - acho que sempre temi, na verdade - Vivi poucas e boas com minhas amada mãe e ela me ensinou valores que hoje passo para você. Podem não ser de tanta importância para você, não obstante ainda ajudam àqueles que desejam ouvir uma palavra.
Os dias que transcorreram foram sem brilho. Visitava todos os dias o cemitério. O coveiro já me conhecia e me cumprimentava cordialmente todas as vezes sabendo que não podia me tocar, mas mesmo assim a vida continuava cinza e sem graça porque não ria mais.
Até um dia entrar naquela loja de conveniência do cemitério para comprar um isqueiro, para acender uma vela para minha mãe e conheci Oscar naquele dia.
Um homem espirituoso e devoto do bem. - pelo menos foi o que pareceu. - Quando decidi o isqueiro que compraria ele me informou que a marca não era muito boa. - mencionou algo sobre ter fumado no colégio - E me sugeriu uma boa marca. Acatei o pedido e comprei, os dias passaram e começamos a nos falar, ele caminhava entre as lápides sempre às 15h e sempre nos encontrávamos - inclusive em dias chuvosos, porque ele trabalhava ali e aquele era o horário de almoço dele.
Quando ele me convidou para um encontro, já tinham passado alguns meses depois da morte na minha mãe. Relutei e aceitei. - mesmo que no dia seguinte me arrependesse.
Dias depois do primeiro encontro, ele segurou minha mão para me beijar, mas eu corri igual a uma menina do colegial assustada. - muito assustada. Queria o rabo da saia da minha mãe.
Na mesma noite deste último evento, sonhei com minha mãe, usando um vestido brilhante e dourado, sorrindo afavelmente para mim e parada no meio do corredor que era do antigo colégio que estudei na minha época de colegial. E depois de abraçar a perna dela ouvi alto e claro como como o dia.
Você tem que se concentrar, você tem que ser forte, Helena. Só por uma noite!
E acordei.
No dia seguinte, encontrei com ele e depois de agir como se não tivesse acontecido nada, ele segurou minha mão para pedir desculpa. E eu o beijei feliz. As nuvens abriram no céu e respirei aliviada por saber que minha mãe tinha razão. - elas sempre têm.
Fui brava, fui forte, fui eu mesma e feliz fiquei. Dali em diante continuamos vivendo nossos dias juntos esperando que as coisas mudassem.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Tradicional


O tradicional muda. E isso pode ser dito com toda a certeza do mundo.
Esses dias, de dentro do ônibus, enquanto voltava para casa, vi um anúncio da marca Leite de Rosas com dois rapazes abraçados que falava que os produtos eram para todos os tipos de famílias e no seu canto tinha uma data que informava a existência da marca desde 1929. O que me fez, assim como os homens de laranja também fizeram, cair em uma profunda reflexão sobre como tudo, sem exceção, tem que mudar. 
Elas mudam porque são obrigadas. Claro que para melhor, e, porque precisam, mas também porque eram outros tempos. Eram outros tempos. 
Fazendo uma recapitulação dos muitos séculos passados: os guerreiros tinham um incentivo a terem relações entre si, para que assim, algum afeto fosse gerado e dessa forma o desenvolvimento em batalhas seria muito melhor - para protegerem uns aos outros etc.
Caminhando para mais perto no tempo, chegamos às marcas atacando com força incentivando consumo: não pense, não fale, compre, beba, não leia e consuma... Não se esqueça, use, seja... Elas escravizaram muito mais do que muitos homens - simplesmente por poderem durar mais de 100 anos, diferente de nós -. Mas graças a alguém, cujas intenções eram boas, evoluímos para o não aceitar tudo de toda forma nessas propagandas, obrigando as a mudarem suas estratégias e focando mais em atingir de forma sutil o comum: a família, afinal, todos tem uma.
Novamente avançando no tempo, as famílias foram se transformando - pelo menos é isso que querem acreditar, porque já acontecia, só não explicito - homens e mulheres assumiram seus amores por eles próprios e seus semelhantes e ocuparam espaço - e que espaço -. Por fim, as marcas se adaptaram abraçando esses guerreiros enquanto muitos ainda pregam discursos de ódio. Mesmo não sendo o real foco, a mensagem deixa muitas coisas abertas a interpretações das mais variadas. Então façamos como as marcas, vamos pregar o amor para todos - porque é o que todos querem -. E isto posso afirmar com toda a certeza, pois o tradicional muda.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Desabafo na Janela

Esse conto é dedicado a uma senhora que não sei o nome e me parou na janela.
Em uma tarde fria de junho, quando todos só pensavam em bebidas quentes e cobertas para fugir da vida que acontecia do lado de fora da porta, uma senhora esperava impaciente na janela.
Era por volta das três e quarenta e cinco quando um jovem passava sentindo frio, com uma mochila nas costas e uma sacola plástica na mão direita. A senhora o viu e emitiu um som para chamar atenção dele, mesmo que estando no segundo andar do prédio.
- Moço, você poderia me dizer se o padeiro já passou?
- Não passou ainda não. - ele disse depois de olhar no relógio. - Ainda são 15:45h, ele geralmente passa às 16h.
Ela assentiu calada e olhou em volta ao ouvir a buzina do padeiro.
- Está bem então. Não queria sair pra comprar pão porque a padaria é muito longe daqui. - ela começou ao ver o jovem concordando com a cabeça - Poderia morar no apartamento que minha mãe e meus irmãos moravam, mas como já perdi eles e sinto muita falta, não gosto daquele lugar. Minha irmã também mora aqui perto, mas gosto de ter o meu canto e não incomodar ela.
- Entendo...
- Mas de qualquer forma já está passando. Estou melhor agora, mas ainda sinto muita falta deles porque sempre gostei de irmão homem e Deus me deu dois.
O jovem olhou em volta tocado com a história triste da senhora na janela e então ao longe ele viu o padeiro.
- A senhora gostaria que eu o chame?
- Não precisa não, vou esperar ele. - ela disse com um sorriso afável no rosto. - Me desculpe desabafar com você. Não costumo fazer isso com pessoas desconhecidas, mas faço isso com gente que olho e vejo que tem caráter.
O jovem sorri e agradece o elogio. Ele pensa em continuar a caminhada de volta para casa e ela repete as coisas - como pessoas de idade geralmente fazem e no fim acrescenta um comentário.
- Foi um prazer conhecer e conversar com você. Me desculpa mesmo o desabafo.
- Não foi nada, acontece. E o prazer foi meu!
Eles se despedem e o jovem entra no predio, pensando em como a vida é volátil. Como com as perdas fragiliza o ser humano e mesmo assim continua se isolando fugindo de certos problemas. Ele lamentou a tristeza de uma senhora que talvez nunca mais veja ou converse, mas sabia que daquela breve conversa tinha absorvido uma lição de vida que levaria para sempre na sua bagagem.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Missão dos Ciclos 3

- Essa medalha que você me deu é muito bonita, Jardel. - Daniel disse.
- Que bom que gostou. - o companheiro olhava afavelmente - Em breve vai ter um número suficiente para ter a recompensa.
- Qual a recompensa?
- Não posso te dizer, lamento.
Eles continuaram caminhando pela rua, enquanto pessoas passavam por eles sem vê-los. Quando chegaram na esquina Jardel parou e olhou nos olhos dele.
- Vai acontecer uma coisa agora. Você precisa prestar atenção.
Daniel parou e olhou em volta. Tudo que conseguiu ver foi um homem de meia idade acendendo um churrasquinho de esquina e nada mais.
- Mas vai acontecer a ele?
O silêncio de Jardel respondeu que sim, e então o companheiro de branco falou.
- Você deseja salvá-lo ou deseja deixa-lo parado?
- Desejo que ele sinta vontade de contar o dinheiro e uma moeda caia no chão obrigando-o a se abaixar no chão e ele se desequilibre e deite no chão.
A ação aconteceu meio rápida. O homem largou os espetos, pegou as moedas, deixou cair umas duas no chão e logo ele estava deitado no chão. Rapidamente um barulho de moto soou e ele viu um motociclista vindo rapidamente perdendo o controle.
- O motociclista pode machucar o moço do churrasquinho.
- O que deseja fazer com o motociclista, Daniel?
- Desejo que o freio volte a funcionar e o máximo que aconteça seja ele cair no chão perto do moço.
A ação aconteceu tão rápida que não deu tempo de ele respirar, se fosse preciso.
Os dois homens se levantaram e se olharam assustados.
- Não acredito, estou vivo! - disse o motociclista - Obra divina isso?
- O que quer que tenha sido, deve ter salvado nós dois. Fico aliviado. - disse o homem de meia idade. Eles então se aproximaram e o homem do churrasquinho foi cuidar dos ferimentos do motociclista.
Jardel então olhou para Daniel e sorriu tirando do bolso duas medalhas com a mesma data do dia. Porém cada uma delas tinha as palavras Charlison e Edmilson, respectivamente o motociclista e o moço do churrasquinho.
- Fico feliz que tenha ganhado duas medalhas de uma vez. - pôs a mão no bolso e tirou mais uma - Tome, por causa da sua criatividade você vai ganhar mais uma. Parabéns pela criatividade.
Esta tinha a palavra criatividade gravada e tinha uma cor de bronze com a borda dourada. Daniel sorriu e guardou ela no bolso.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Resenha O Iluminado

O Iluminado (Stephen King, SUMA de Letras) é um livro que narra a história de como a família Torrance foi parar no assombrado Hotel Overlook em um dos invernos mais rigorosos de todos os tempos. Após conseguir um emprego novo como zelador, Jack  Torrance se muda com sua mulher e seu iluminado filho para o Hotel Overlook. Chegando neste hotel, Danny - o menino iluminado da história - conhece Dick Hallorann, o cozinheiro do hotel que lhe conta coisas a respeito da sua nova casa e também dá conselhos. King - o qual se denominava alcóolatra bem intencionado na época - trás problemas do dia a dia e possíveis situações que pessoas iluminadas podem passar.
Considerado um dos maiores clássicos de todos os tempos, O Iluminado é um livro quente que prende o leitor do início ao fim, com suas passagens de memórias e fatos novos no presente. Para os amantes de thrillers - ou livros de suspense/terror/policial -, King domina a arte de prender o leitor com informações importantes sendo liberada gradativamente.
Diferente de outras obras de King, O Iluminado tem uma pegada voltada para o terror. Porém, como o próprio disse, para que se sinta medo ao ler, precisa-se identificar com o personagem, se importar com ele, por isso muitos não gostam - e por isso evitam - de ler livros desse tipo. Ao final do livro, percebe-se que todas as lacunas que poderiam gerar possíveis falhas na história foram preenchidas, e ainda que por ser eletrizantemente boa, a narrativa - por mais que confusa para quem leia sem prestar a devida atenção - prende do início ao fim com seus enigmas - como por exemplo o que é Redrum, quem é Tony? E o que torna o Hotel Overlook um local "perfeito" para se ter maravilhosos pesadelos.

Seres invisíveis

Certo dia, estava caminhando na rua e reparei alguém usando roupas laranjas. Ele não estava sozinho, porque do outro lado da rua também tinha outra pessoa que estava fazendo a mesma coisa que ele: Varrendo o chão.
Bem ou mal, fazemos esse tipo de coisa diariamente - quando quebramos algo principalmente -, ou simplesmente quando só desejamos manter o ambiente limpo. Isso me fez ver algo que há tempos tinha pensado, aquela reflexão profunda - não daquelas de chuveiro porque a água está acabando -, mas daquelas que fazemos e dormimos no meio, porque elas sempre são feitas com a orelha no braço/travesseiro.
No universo que é minha mente - espero não estar sozinho nessa - cheguei a conclusão do óbvio. Será ele mais feliz do que eu?
O trabalho que ninguém quer fazer, para ele é uma saída, aquela válvula que desejamos encontrar ao assistir um filme - ou seriado -, aquele brilho que desejamos ver no trabalho, para ele pode não ser o melhor, mas no sofrimento entendemos quem somos nós e quem são os outros. No fundo do poço que nós olhamos para cima, nunca olhamos do balde para baixo.
Ele varria com maestria, com habilidade e com precisão. A sugeira fugia dele, e em minutos a calçada estava limpa. Mesmo já em casa, continuei admirando o trabalho daquele ser invisível, que todos sabem que existe, porém ninguém dá um bom dia ou só um cumprimento com a cabeça.
Todos estão preocupados com as ordens a serem dadas, todavia na hora de ouvir, imitam uns aos outros como um macaco.
Não só na área da ordem urbana, mas em todas as áreas. Não sou mais especial por usar terno ou roupas laranjas, não sou chefe porque mando, afinal sem crachá, quem sou eu? Tão invisível quanto ele?
Não queremos nos ver o nosso orgulho ferido, não queremos nos ver naquele poço.
Da próxima vez que ver um laranja invisível. Pensemos em ordem, em como eles e outros - em hoteis e demais empresas - fazem toda diferença. Pensemos em como eles carregam aquilo que não desejamos mais, porque é o trabalho deles. - Talvez eles tenham o poder, nós achamos que temos - Pensemos em bom dia!

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Falta

Falta água
Falta comida
Falta o básico
Até saneamento


Falta luz
Falta amor
Falta compaixão
Até por si próprio


Falta educação
Falta de educação
Falta ausência de tristeza
Até mais gente sorrindo


Quiça um dia poderemos sorrir
Agradecer a vida que levamos
Sabendo que não temos porcos gordos
Mas que temos vacas fartas

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Missão dos Ciclos 2

- Qual será minha primeira missão? - Daniel perguntou depois de por uma bermuda branca e uma pequenina camisa de botão branca também.
- Antes preciso dizer te que suas missões sempre serão baseadas em escolhas. A medida que você escolhe, as coisas mudam conforme suas escolhas também mudam. Lembre-se: Cada escolha mudará bruscamente a vida de alguém.
- Tudo bem. - ele disse sem entender direito a dimensão daquela informação.
- Você começará tendo que escolher isso. - O rapaz estalou o dedo e eles estavam em uma rua da cidade. Ele apontou para o alto da árvore e mostrou o gato da senhora Lurdes preso - como ele sempre ficava todo dia 30 de cada mês. - O que você escolhe?
- Eu escolho salvá-lo!
O rapaz assentiu e o gato desceu sozinho e a senhora Lurdes - que tinha saído atrás dele - saiu para pegá-lo.
- Ela não está nos vendo?
- Não, somos invisíveis para todos. Não se preocupe.
Ela pegou o gato e deu um abraço apertado que fez o gato miar alto e entrou.
- Vamos filhinho - ela disse - vamos tomar um banho quentinho. - ela colocou uma panela com água para esquentar. Minutos depois a água fervia ela pegou o gato e o molhou com a água fervente. O gato miava alto como um choro desesperado. Daniel não aguentou olhar e cobriu os olhos.
- Ela não pode fazer isso! Pare sua velha maluca, está machucando o gatinho!
- Não adianta. Você fez a sua escolha, infelizmente o gato sofreu os danos da sua escolha. - o rapaz estalou os dedos e eles saíram da casa.
- Então quer dizer que tudo que eu escolho influencia de alguma forma?
- Sempre. - o rapaz sorriu depois de perceber que Daniel entendeu a importância das escolhas. - Agora vamos para a próxima. - estalou os dedos novamente e eles pararam na frente da casa de Judite, uma amiga dele de mesma idade.
  Eles avistaram um homem parando na porta que tocou a campainha. Tocou de novo. Parecia nervoso para entrar na casa.
- Que dia é hoje? - Daniel perguntou.
- Terça- feira.
- Hoje é o dia que os pais dela chegam tarde.
- O que você escolhe? Vai deixa-la ouvir e abrir a porta para ele entrar e ela não vai ouvi-lo.
- Quero ela não ouça nenhuma das vezes a campainha. Quem quer que seja esse homem terá que voltar outra vez quando os pais dela estiverem em casa.
O rapaz sorriu. Depois de tocar mais uma vez o homem foi embora.
- O que aconteceria se ele entrasse?
- Ele ia falar algumas bobagem e depois causa um trauma irreparável na vida dela. E tome, aqui está sua recompensa pela decisão mais sábia. - entregou uma pequenina medalha oval com a data do dia e o nome de Judite. - Quando você reunir um número significativo, as coisas serão diferentes.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Ninfa

Ela foi criada de coisas pequenas - para ser mais exato, de poeira e terra.
Tudo começou em um dia quando o destino transformou lascas de serragem e pedaços de chão, nela. Sua pele bronzeada e olhar firme mas toque frio e delicado era tudo o que tinha quando Julio, o lenhador, foi ao serviço de corte como de praxe.
Eles trocaram um breve olhar vazio até que ele percebesse que ela - ao contrário dele - usava nenhuma roupa com os pequenos seios de fora e o sexo amostra. Sem pudor, sem medo, como veio ao mundo.
Dias se passaram, e Julio sempre voltava ao encontro da floresta para coletar lenha e ver os olhos de avelã da ninfa. Quando ele a perguntou se ela sentia frio, a única reação dela foi tocar a blusa de flanela xadrez dele, sintética - completamente diferente de tudo que ela já tinha sentido.
Novamente, ele saiu daquela floresta para viver. Certo dia, ela o acompanhou, e quando as árvores deixaram de cobrir o céu e servir de guarda-chuva ela sentiu um aperto tão grande que sentiu que o destino dela seria continuar naquela floresta - mesmo que não a protegesse.
Ao final do primeiro ano, ela o via todos os dias, e eles já trocavam toques sutis. Se apaixonaram perdidamente, liberando magias que somente ninfas em mais perfeito estado de espirito conseguem liberar. Ela pensava nele o dia todo, toda hora, cada minuto, segundo por segundo.
Chegou a criar uma flor em homenagem a ele. Batizou esta de Jul, e enfeitou aquele local, mas ele não apareceu. Preocupada, ela esperou às beiras dos arbustos pelo lenhador apaixonado e viu que pessoas construíam uma casa ali perto.
Aos olhos marejados, ela continuou esperando - como uma donzela esperando o príncipe na torre - e então viu a tristeza. Ele abraçando e beijando outra mulher. Todo aquele momento tinha sido vítima de um amor falso e interesseiro, que só queria a madeira dela sem nem ao menos falar palavras puras.
Com a tristeza em comando ela correu na direção oposta do que tinha visto. Correu o mais rápido que conseguiu e viu a floresta acabar. E em um salto saiu da cobertura da floresta transformando-se em lascas de serragem e poeira.
Ela foi criada de coisas pequenas - para ser mais exato, de poeira e terra.
E agora tudo que tinha se tornado era exatamente suas origem. Pelo menos, agora, estava livre de toda aquela tristeza e daquela prisão que era a floresta em que vivia.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Feito sabão

Certo dia, quando estava tudo cinza, um dia nublado, frio e sem graça, daqueles que você prefere ficar em casa dormindo mas tem que ir para um colégio.
Um pote cilíndrico estava no meio do pátio, largado no chão. Todos que passavam simplesmente ignoravam, passavam por cima e do lado, era laranja com a tampa também redonda e verde limão.
Quando o pátio esvaziou, uma jovem que aparentava ter uns 17 anos chegou perto, sem medo se abaixou para ver. Era difícil perceber o potinho no chão, mas não ela, pois seu cabelo era uma mistura de vermelho com preto, sua mochila preta de bolinhas brancas.
- Que diabos é isto?
Ela pega sem medo e resolve abrir para ver.
Após aberto, viu que era um potinho de bolinhas de sabão. Continuando, ela soprou uma única e pequenina bolha. Que subiu até ficar fora de alcance e estourou. Então algo surpreendente aconteceu, as coisas começaram a mudar. As nuvens começaram a se dissipar e o dia ganhar cor.
A jovem com o potinho de bolhas na mão começou a fazer bolhas e mais bolhas para mudar a monotonia do tal colégio.
Dentro de uma sala um outro garoto, morrendo de tédio e sono numa aula de química com uma professora chata, nada magra, falando pelos cotovelos, aponta para janela e grita.
- Olhem são bolhas de sabão!
Todos olharam assustados, correram para a janela e viram a jovem se divertindo no meio das esferas flutuantes multicoloridas de tamanhos dos mais variados. Na cabeça de um jovem o que é certo, é certo - mesmo que um adulto diga que não. Então lá foram eles, correndo escada abaixo para brincar com as bolhas. A professora - agora sem moral - tentou impedir a saída, mas não conseguiu.
La embaixo os jovens dividiam o tal potinho para que todos pudessem brincar. Cada vez que uma bolha era estourada uma gargalhada saia. Até que todos no pátio riam de uma coisa boba, porém plena, tão plena que só vendo para sentir ou saber.
Enquanto isso, a jovem de cabelo vermelho se sentava no banco ali perto para respirar e a professora desesperada era ignorada enquanto gritava na janela ali em cima para os alunos subirem.
Alegria é sabão, pode ter varias formas, tamanhos, é escorregadia e engraçada.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Elevador

As pessoas costumavam a me chamar de cético. No sentido puro da palavra mesmo, porque nunca acreditei em horóscopos, premonições, nem meteorologia. Até que chegou o dia fatídico, o dia que tudo - e mais um pouco - mudou.
Para ser mais preciso era dia 12 de dezembro de 2012. Obviamente chovia pouco, mas fazia calor, então fui comprar umas cervejas porque no dia seguinte - uma quinta-feira - seria minha folga então resolvi comprar as cobiçadas geladas para tomar, acabar meu maço do mês passado que por causa do trabalho não tinha acabado e talvez ver um ou dois filmes e dormir - se conseguisse.
Carregando o engradado chamei o elevador sem me atentar em qual andar ele estava - não importava mesmo, só poderia pegar o de serviço por causa das sacolas de mercado. - Ele chegou eu abri a porta surrada de metal descascado e apertei o botão do meu andar, o 12.
Lembro como se fosse hoje, mas o ranger da porta doeu meu ouvido. E mesmo com dificuldade ela fechou e ele deu o tranco que sempre dava para subir os andares. Mal sabia que aquele dia eu não deveria fazer nada daquilo. Nem elevador, nem escadas, nem bebidas ou cigarros. Talvez nem devesse estar acordado - se isso fosse possível.
A luz piscou um pouco e quando o letreiro saiu da letra P para o número 1 eu tive esperança que tudo daria certo. Tudo apagou, e eu fiquei no completo escuro daquelas 4 paredes - sendo uma delas com um acolchoamento para mudanças - 1 letreiro que emitia uma luz fraca com os dizeres: "Sob vigia de câmeras", um interfone que nunca fora usado e papéis mortos que falavam de regras de boas condutas - que ninguém nunca se quer ouvira falar - mas lá estava eu, com o peso, sede e o medo tinha entrado no elevador - e parecia não estar sozinho.
Aquilo borbulhava dentro de mim. Soltei a sacola no chão e me abracei. Quanto mais medo sentia, pior ele ficava. - maldita claustrofobia.
Me sentia observado, porém estava sozinho. Me sentia engolido, porém sabia que aquilo já acabaria, era preciso ter algo que nunca tive, fé. Me sentei no chão e olhei para o letreiro que agora marcava dois. Não, não estava sozinho, até quando ficaria preso ou acorrentado ao passado?
Minhas mãos tremiam muito, mas tanto que foi difícil alcançar uma cerveja quente. O dedo balbuciou aquele tsi fez o dois avançar mais uma casa. Agora estávamos, eu, o medo, e meu vício dentro de um elevador que já era para ter aberto a porta.
Quando visão acostumou a escuridão porque o letreiro da câmera apagou, eu peguei o isqueiro e acendi meu 2 vicio, os cilíndricos de tabaco puro extra forte. É proibido fumar dentro de locais fechados, mas morreria de pânico se não o fi-lo. Fumei tão rápido que a nicotina deu um baque surdo no nervosismo e me acalmei - baixa, pressão baixa.
4. Será que morreria? Os japoneses e demais orientais abominam tanto esse número que pensei que tendo mais 4 de qualquer coisa ali dentro daquele elevador escuro, eu teria morrido pela quarta vez. Depois daquilo pensei em desistir, acendi mais um, e tinha tanta fumaça que não sabia se o letreiro dizia 6 ou 9, não tinha visto os números mudarem. - Todavia quis acreditar que aqueles demônios me abandonariam e estaria chegando no meu querido 12º andar. Por que tão alto e tantas coincidências?
O dez veio, e como uma nota musical ou de prova de vida, uma pequena luz brotou por debaixo da porta mecânica, então respirei fundo - depois de tossir com a fumaça mortal - e me agarrei ao interfone. O chiado parou, um porteiro entediado me atendeu e já vinha. Quando o 11º chegou a luz do botão de emergência acendeu e me liguei que aquele sim era o sinal divino, apertei o tantas vezes que parecia uma sinfonia desesperada - mas estava bêbado, não ouvia, nem tinha controle do meu corpo.
A mecânica abriu e do alto veio uma mão estendida para me oferecer ajuda.
Por fim, agarrei-a e dali em diante vi que ceticismo nunca tinha me levado a lugar ao algum. Tive medo do escuro, de demônios, de mim mesmo, tive fé e sai.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Missão dos Ciclos 1

  Normalmente as pessoas acham que a idade de Daniel é muito pequena para fazer grandes atos. Mas a verdade, é que a bondade e a maldade podem estar em qualquer um - independente de quão velho a pessoa for. - E mesmo que as pessoas apontassem para ele e rissem de suas atitudes, Daniel ainda era uma bom menino. - como todo menino de 10 anos deveria ser.
  Acontece que um belo dia - talvez não tão belo assim - ele tinha ido ao colégio, e seus amigos riram dele - como de costume - mas fizeram algo que chatearam ele demais: Colocaram insetos dentro do seu estojo e do seu caderno, e ele, como odiava insetos ficou muito triste, voltando para casa sozinho e chorando. Daniel vivia numa cidade pequena - dessas que todos se conhecem, fingem que se gostam, mas se odeiam, dessas que todos sabem até quando cada um vai ao banheiro, mas discretamente não falam nada - depois de chegar em casa, e ver que a mãe bebia mais uma garrafa de uísque - não tinha noção que ela era alcoólatra por ser muito novo, e sua mãe dizia sempre que era guaraná. E ele acreditava por ela esvaziar a garrafa de vidro e por em uma de plástico. - sentada na mesa com os olhos vermelhos e marejados. Ele gostava de pensar que ela tinha um dia difícil. Mas esse dia não. Somente se trancou no quarto e esperou que a vida desse um sinal de vida que iria melhorar ou só parar de caçoar dele.
  Caiu no sono algumas vezes, porém acordou com dificuldade de respirar como qualquer pessoa que tinha asma e outras doenças respiratórias devido ao choro incessante. Todavia, já tinha passado algumas horas e ele sabia que no dia seguinte não iria ter aula por ser um feriado. - não importava o feriado, nunca importou, ele tem só 10 anos. - Mas quando abriu os olhos conseguiu perceber um barulho longe, mas diferente de tudo que tinha ouvido. Era algo como quando você pega um graveto e balança sem parar cortando o ar. - brincadeira de chamar morcegos, como ele chamava - Mas o barulho estava longe e não imaginava que um graveto poderia fazer um barulho que mesmo ao longe seria alto.
  Então ele levantou da cama, abriu a persiana e a janela procurando no chão, na vizinhança e depois os olhos subiram ao céu. Ao longe viu uma nuvem que nunca tinha visto: Branca como as demais, mas fina como um risco de giz no quadro negro, mas a ponta era grossa, como a ponta de um cotonete. Aquilo riscava o ar rapidamente deixando seu rastro. Pensou até que era um avião - como aquele que o pai morrera - mas vinha rápido e na sua direção.
  De repente um clarão branco e forte aconteceu e depois ficou tudo negro - como quando dormimos. - Ele abriu os olhos e viu um rapaz usando um jaleco comprido, que se virou para ele e falou.
- Olá pequenino, finalmente você acordou. - ele disse fechando o livro que lia.
- Onde estou? Quem é você?
- Você está na sala de recuperação do Instituto Bela Vida. E eu sou seu companheiro de jornada Jardel.
- Cadê minha mãe?
- Sua mãe ficou em casa, mas fique tranquilo ela deixou você vir comigo. Agora venha, vamos resolver umas coisas.
  Ele assentiu calado e o seguiu.
- Tenho que fazer alguma coisa?
- Sim, você agora terá que cumprir uma série de missões.
- O que eu ganho com isso?
- Uma vida melhor.
Ele assentiu calado e aceitou ajeitando o cabelo castanho claro.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Viagem ao negro 5

  Ele finalmente tomou coragem e parou na frente da "sua" casa. Era estranho como ela parecia ser a única que não era espelhada da que tinha no seu mundo. E além disso o portão não estava trancado - exatamente como a sua ficava sempre. - Ele entrou no portão e pensou em entrar direto, mas hesitou e tocou a campainha. Por fim tocou de novo, e seu sósia abriu o portão.
  Depois de cambalear ao ver alguém exatamente igual a ele - e não era em um espelho - contou tudo que tinha acontecido até os últimos estantes e seu sósia assentiu calado fazendo uma cara de surpreso.
- Você disse que a tem! - disse o sósia dele se referindo a doença.
- Infelizmente... E suspeito que aqui não me darão a cura.
  Por fim estavam os dois sentados no sofá da sala confabulando sobre o destino, mas antes que se lembrassem que era tarde um deles falou.
- Mas a sua mulher, ou a minha... Já não sei mais nada... Acho que tanta coisa aconteceu em período de tempo tão curto que se descobrisse que eu não sou eu, não acharia estranho...
- Está vindo sim! - o morador daquela dimensão lembrou. - Faça o seguinte: encontre-me na fonte aqui perto em 10 minutos.
  Marlon saiu da casa e se dirigiu imediatamente para longe da casa e depois para a fonte que ficava a alguns quarteirões dali. Não demorou muito e o seu sósia apareceu.
- Estive pensando no caminho pra cá.
- No que? - Marlon perguntou.
- Você disse que eu sou sua cópia exata, exceto pela doença, certo?
- Certo. Inclusive sua casa é igual a minha.
- Então já sei exatamente o que fazer! - Marlon assentiu calado e ele continuou - vou me candidatar para ir fora do planeta. Podemos trocar de vidas, acha que consegue?
- E largar tudo para trás?
- Sacrifícios são necessários, lembra? - ele falou se referindo ao sonho da mãe.
Marlon respirou fundo e por fim falou.
- Eu aceito, será nossa vida secreta. - disse com um sorriso marejado.
  Eles se abraçaram e choraram um pouco juntos. Trocariam de lugar e viveriam no lugar do outro secretamente até que achassem uma forma de ajudar todas as pessoas dos seus respectivos mundos.

  Uma semana se passou e eles finalmente se despediram. O sósia de Marlon adentrou na espaçonave, depois de um treinamento secreto enquanto Marlon viveu como ele, rumo ao buraco negro e ao planeta Terra. Poucos dias se passaram depois que Marlon tinha se acostumado a sua vida diferente, e por isso, era como se nunca tivesse saído de casa - afinal só trocava o jeito das pessoas na rua, mas em casa era a mesma coisa. - Ele também ajudou a infectar sua mulher atual para que ambos pudessem viver juntos até o fim da vida.
  Em uma viagem que Marlon fez com sua mulher ele contou a verdade e ela sorriu satisfeita sabendo que aquela seria a mesma coisa que o outro teria feito. E então eles se deitaram no gramado de uma cidade que eles estavam visitando e ficaram olhando as estrelas conversando sobre como estaria a vida do outro lado da galaxia. E na outra galaxia, o sósia de Marlon estava sentado no jardim tomando um café junto com sua mulher, falando juras de amor e se perguntando como estariam todas as pessoas que conhecia, mas sabendo que agora estava onde sempre desejara estar e ajudando a procurar uma cura para a maldita.