sexta-feira, 26 de junho de 2015

Desabafo na Janela

Esse conto é dedicado a uma senhora que não sei o nome e me parou na janela.
Em uma tarde fria de junho, quando todos só pensavam em bebidas quentes e cobertas para fugir da vida que acontecia do lado de fora da porta, uma senhora esperava impaciente na janela.
Era por volta das três e quarenta e cinco quando um jovem passava sentindo frio, com uma mochila nas costas e uma sacola plástica na mão direita. A senhora o viu e emitiu um som para chamar atenção dele, mesmo que estando no segundo andar do prédio.
- Moço, você poderia me dizer se o padeiro já passou?
- Não passou ainda não. - ele disse depois de olhar no relógio. - Ainda são 15:45h, ele geralmente passa às 16h.
Ela assentiu calada e olhou em volta ao ouvir a buzina do padeiro.
- Está bem então. Não queria sair pra comprar pão porque a padaria é muito longe daqui. - ela começou ao ver o jovem concordando com a cabeça - Poderia morar no apartamento que minha mãe e meus irmãos moravam, mas como já perdi eles e sinto muita falta, não gosto daquele lugar. Minha irmã também mora aqui perto, mas gosto de ter o meu canto e não incomodar ela.
- Entendo...
- Mas de qualquer forma já está passando. Estou melhor agora, mas ainda sinto muita falta deles porque sempre gostei de irmão homem e Deus me deu dois.
O jovem olhou em volta tocado com a história triste da senhora na janela e então ao longe ele viu o padeiro.
- A senhora gostaria que eu o chame?
- Não precisa não, vou esperar ele. - ela disse com um sorriso afável no rosto. - Me desculpe desabafar com você. Não costumo fazer isso com pessoas desconhecidas, mas faço isso com gente que olho e vejo que tem caráter.
O jovem sorri e agradece o elogio. Ele pensa em continuar a caminhada de volta para casa e ela repete as coisas - como pessoas de idade geralmente fazem e no fim acrescenta um comentário.
- Foi um prazer conhecer e conversar com você. Me desculpa mesmo o desabafo.
- Não foi nada, acontece. E o prazer foi meu!
Eles se despedem e o jovem entra no predio, pensando em como a vida é volátil. Como com as perdas fragiliza o ser humano e mesmo assim continua se isolando fugindo de certos problemas. Ele lamentou a tristeza de uma senhora que talvez nunca mais veja ou converse, mas sabia que daquela breve conversa tinha absorvido uma lição de vida que levaria para sempre na sua bagagem.

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