quarta-feira, 3 de junho de 2015

Elevador

As pessoas costumavam a me chamar de cético. No sentido puro da palavra mesmo, porque nunca acreditei em horóscopos, premonições, nem meteorologia. Até que chegou o dia fatídico, o dia que tudo - e mais um pouco - mudou.
Para ser mais preciso era dia 12 de dezembro de 2012. Obviamente chovia pouco, mas fazia calor, então fui comprar umas cervejas porque no dia seguinte - uma quinta-feira - seria minha folga então resolvi comprar as cobiçadas geladas para tomar, acabar meu maço do mês passado que por causa do trabalho não tinha acabado e talvez ver um ou dois filmes e dormir - se conseguisse.
Carregando o engradado chamei o elevador sem me atentar em qual andar ele estava - não importava mesmo, só poderia pegar o de serviço por causa das sacolas de mercado. - Ele chegou eu abri a porta surrada de metal descascado e apertei o botão do meu andar, o 12.
Lembro como se fosse hoje, mas o ranger da porta doeu meu ouvido. E mesmo com dificuldade ela fechou e ele deu o tranco que sempre dava para subir os andares. Mal sabia que aquele dia eu não deveria fazer nada daquilo. Nem elevador, nem escadas, nem bebidas ou cigarros. Talvez nem devesse estar acordado - se isso fosse possível.
A luz piscou um pouco e quando o letreiro saiu da letra P para o número 1 eu tive esperança que tudo daria certo. Tudo apagou, e eu fiquei no completo escuro daquelas 4 paredes - sendo uma delas com um acolchoamento para mudanças - 1 letreiro que emitia uma luz fraca com os dizeres: "Sob vigia de câmeras", um interfone que nunca fora usado e papéis mortos que falavam de regras de boas condutas - que ninguém nunca se quer ouvira falar - mas lá estava eu, com o peso, sede e o medo tinha entrado no elevador - e parecia não estar sozinho.
Aquilo borbulhava dentro de mim. Soltei a sacola no chão e me abracei. Quanto mais medo sentia, pior ele ficava. - maldita claustrofobia.
Me sentia observado, porém estava sozinho. Me sentia engolido, porém sabia que aquilo já acabaria, era preciso ter algo que nunca tive, fé. Me sentei no chão e olhei para o letreiro que agora marcava dois. Não, não estava sozinho, até quando ficaria preso ou acorrentado ao passado?
Minhas mãos tremiam muito, mas tanto que foi difícil alcançar uma cerveja quente. O dedo balbuciou aquele tsi fez o dois avançar mais uma casa. Agora estávamos, eu, o medo, e meu vício dentro de um elevador que já era para ter aberto a porta.
Quando visão acostumou a escuridão porque o letreiro da câmera apagou, eu peguei o isqueiro e acendi meu 2 vicio, os cilíndricos de tabaco puro extra forte. É proibido fumar dentro de locais fechados, mas morreria de pânico se não o fi-lo. Fumei tão rápido que a nicotina deu um baque surdo no nervosismo e me acalmei - baixa, pressão baixa.
4. Será que morreria? Os japoneses e demais orientais abominam tanto esse número que pensei que tendo mais 4 de qualquer coisa ali dentro daquele elevador escuro, eu teria morrido pela quarta vez. Depois daquilo pensei em desistir, acendi mais um, e tinha tanta fumaça que não sabia se o letreiro dizia 6 ou 9, não tinha visto os números mudarem. - Todavia quis acreditar que aqueles demônios me abandonariam e estaria chegando no meu querido 12º andar. Por que tão alto e tantas coincidências?
O dez veio, e como uma nota musical ou de prova de vida, uma pequena luz brotou por debaixo da porta mecânica, então respirei fundo - depois de tossir com a fumaça mortal - e me agarrei ao interfone. O chiado parou, um porteiro entediado me atendeu e já vinha. Quando o 11º chegou a luz do botão de emergência acendeu e me liguei que aquele sim era o sinal divino, apertei o tantas vezes que parecia uma sinfonia desesperada - mas estava bêbado, não ouvia, nem tinha controle do meu corpo.
A mecânica abriu e do alto veio uma mão estendida para me oferecer ajuda.
Por fim, agarrei-a e dali em diante vi que ceticismo nunca tinha me levado a lugar ao algum. Tive medo do escuro, de demônios, de mim mesmo, tive fé e sai.

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