quarta-feira, 10 de junho de 2015

Ninfa

Ela foi criada de coisas pequenas - para ser mais exato, de poeira e terra.
Tudo começou em um dia quando o destino transformou lascas de serragem e pedaços de chão, nela. Sua pele bronzeada e olhar firme mas toque frio e delicado era tudo o que tinha quando Julio, o lenhador, foi ao serviço de corte como de praxe.
Eles trocaram um breve olhar vazio até que ele percebesse que ela - ao contrário dele - usava nenhuma roupa com os pequenos seios de fora e o sexo amostra. Sem pudor, sem medo, como veio ao mundo.
Dias se passaram, e Julio sempre voltava ao encontro da floresta para coletar lenha e ver os olhos de avelã da ninfa. Quando ele a perguntou se ela sentia frio, a única reação dela foi tocar a blusa de flanela xadrez dele, sintética - completamente diferente de tudo que ela já tinha sentido.
Novamente, ele saiu daquela floresta para viver. Certo dia, ela o acompanhou, e quando as árvores deixaram de cobrir o céu e servir de guarda-chuva ela sentiu um aperto tão grande que sentiu que o destino dela seria continuar naquela floresta - mesmo que não a protegesse.
Ao final do primeiro ano, ela o via todos os dias, e eles já trocavam toques sutis. Se apaixonaram perdidamente, liberando magias que somente ninfas em mais perfeito estado de espirito conseguem liberar. Ela pensava nele o dia todo, toda hora, cada minuto, segundo por segundo.
Chegou a criar uma flor em homenagem a ele. Batizou esta de Jul, e enfeitou aquele local, mas ele não apareceu. Preocupada, ela esperou às beiras dos arbustos pelo lenhador apaixonado e viu que pessoas construíam uma casa ali perto.
Aos olhos marejados, ela continuou esperando - como uma donzela esperando o príncipe na torre - e então viu a tristeza. Ele abraçando e beijando outra mulher. Todo aquele momento tinha sido vítima de um amor falso e interesseiro, que só queria a madeira dela sem nem ao menos falar palavras puras.
Com a tristeza em comando ela correu na direção oposta do que tinha visto. Correu o mais rápido que conseguiu e viu a floresta acabar. E em um salto saiu da cobertura da floresta transformando-se em lascas de serragem e poeira.
Ela foi criada de coisas pequenas - para ser mais exato, de poeira e terra.
E agora tudo que tinha se tornado era exatamente suas origem. Pelo menos, agora, estava livre de toda aquela tristeza e daquela prisão que era a floresta em que vivia.

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