sexta-feira, 24 de julho de 2015

Coco

Estava no ponto de ônibus como qualquer pessoa. Passou um que não servia. E outro. E outro. Depois mais um. Onde estaria o diabo do meu ônibus que não aparecia nem por um decreto?
Revoltado, caminhei mais dois quarteirões para ter outra variedade de ônibus. - morar longe do trabalho não é fácil, acredite -. Pra minha sorte - ou azar - moro num local que pegando uma condução, chego onde eu quero.
Peguei o bendito... Um roubo, mas paguei. Com muita sorte consegui um local para ficar em pé, porque naquela hora, não existe lugar para se sentar e esperar a viagem passar. Depois de encarar uma hora de pé, balançando na dança estranha que é ficar de pé, consegui um lugar.
Sentei aliviado, mas foi então que o ônibus deixou entrar uma senhora que tinha um dos olhos totalmente branco por causa da catarata avançada. E pelo que parecia ela não tinha dinheiro para pagar a cirurgia porque contou as moedas para pagar o ônibus.
Ela chamou minha atenção por causa da calma que fazia tudo e do bom dia que ela tinha dado para o motorista. Parada na roleta mesmo, ela esperou a viagem - que era longa.
Pouco antes da mudança do trajeto muitas pessoas saltaram para pegar o metro e ele esvaziou. Eu sabia que poderia continuar minha viagem e então me sentei na janela, vagando o lugar do meu lado. Ela sentou pedindo licença e sorriu para mim. O ônibus entrou no túnel e ela começou a falar.
- Na maioria das vezes a vida está testando a gente... - a voz dela era como uma voz de uma senhora de idade.
A cabeça dela mirava a frente.
- Mas é difícil... - eu respondi cabisbaixo - Não acha?
- Não... Sabe, se tem uma coisa que aprendi, é que a gente complica sem motivo. A gente não entende propósitos maiores, a vida não é uma mangueira que a gente só colhe frutos.
Fez uma pausa e tocou meu braço.
- Tudo pode estar ruim. Tudo pode estar desencaminhado. Tudo pode parecer turvo, acredite sei como é ver as coisas turvas. Mas amei meu pai, mesmo ele chegando bêbado e me batendo. Amei minha mãe, mesmo ela me abandonando com aquele alcóolatra. Amei meu irmão, mesmo que ele usasse drogas pesadas me chamasse de idiota por tentar ajudar a ele próprio, e não deixar ele se suicidar. - ela fez mais uma pausa e depois continuou tirando uma mexa de cabelo da frente do olho que enxergava normalmente - A vida, meu caro, é uma belo e imenso coco. Ela é dura, difícil, cai na sua cabeça de repente sem você esperar e te deixa tonto, mas com as armas certas, a gente aprende que tem sim um suco que podemos tomar, que podemos saborear e sorrir. As vezes o suco não é tão doce, mas ela te trará sucos melhores se você souber tirar da carapuça dura dela.
Eu estava com uma lágrima nos olhos quando ela acabou de falar.
- E como você sabe disso tudo? Parece que me conhece tão bem...
- Eu vejo isso na vida. - ela apontou para o olho branco - Agora vá com Deus e aproveite o seu suco. - ela disse e desceu do ônibus assim que o ônibus saiu do túnel.
A máquina de transporte continuou o trajeto se passou em frente a praia, onde vi vários coqueiros altos balançando com a brisa. Agradeci, talvez aquele fosse um dos meus sucos.

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