sexta-feira, 17 de julho de 2015

Encontrei

Fim de ano... acho que muitas pessoas adoram as férias por causa do tempo vago que podem fazer tudo que desejam, ler os livros pendentes, não ter que estudar para graduações, não ter nenhuma obrigação - nenhuma mesmo -. Mas não pra mim, eu sou o que chamam de Workaholic, ficar sozinho em casa não é bom para quem é viciado em trabalho. Meu psicólogo tirou férias - se ele consegue, eu consigo também.
Como sou viciado em leitura - começo a pensar que para um jovem adulto tenho muitos vícios... Mas pelo menos eles não são nocivos - li todos os livros que tinham pendentes. Detesto praia - mais um motivo para ficar preso dentro do trabalho -. Vídeo games não me atraem tanto - talvez por eu jogá-los ao ponto que em uma semana acabo com o que é possível ser feito. - Realmente acho que tenho vícios demais para minha idade.
Foi por isso que entrei no bar que tinha aberto para o verão. Por ser novo ainda estava meio bagunçado, mas como o dono precisava da grana, abriu e arrumava tudo ao mesmo tempo - me identifiquei - sentei-me ao balcão e pedi uma dose do uísque da casa - não que quisesse me tornar alcoólatra, isso de fato não tinha problemas. Mas quis tomar uma dose para relaxar.
O garçom - acho que se chamava Jarbas - me serviu com as acrobacias e dei a primeira golada. Ele serviu outra e perguntou se eu era forte para aquilo. - não queria carregar ninguém para fora dali hoje - parei e olhei em volta até que vi um homem que parecia ser mais velho que eu sentado a poucos metros de mim. Ele segurava um copo com um líquido transparente - não dava para identificar se era água, cachaça ou vodca - e por isso me sentei ao lado dele.
Ele emanava uma energia diferente do resto do bar - não que eu seja sensitivo ou seja medium, mas ele também não era tão comum como eu.
- Muita coragem em beber vodka pura. - puxei assunto. Ele riu mostrando os dentes meio amarelados e ajeitou a blusa bege e depois passando a mão na bermuda sem bolsos marrom. Quem usa bermudas sem bolsos hoje em dia?
 - Por que não viajas? - sério que ele usou a segunda pessoa do singular? Que homem exótico... - A propósito é água isso aqui. - enfim sorriu de novo.
- Porque... - não tinha nenhuma resposta.
- Vai te fazer bem. Compre um livro na livraria ali ao lado - apontou na direção de onde eu sabia que tinha uma livraria e eu vi que suas mãos tinham machucados.
Fiz uma pausa e analisei a figura afável que estava diante de mim. Não falo com estranho, mas com ele falei, não disse nada sobre minha vida, e ainda recebi um conselho que pareceu vir de um amigo de infância.
- Você é... Nos conhecemos de algum lugar? Não que eu esteja interessado em você, mas sua sugestão...
- Sou alguém como você. Gosto de ajudar as pessoas com meu trabalho e reparei que você ainda está de crachá, logo, deduzi que estava tenso com trabalho, porque sei que essa empresa é longe daqui. Ninguém, mesmo com a maior benevolência viria tão longe para entrar nesse bar. - ele disse sem ser rude, porém tinha me interrompido e feito uma analise.
Assenti calado e me sentei ali mesmo ao lado dele. Ele pareceu sentir algo e falou.
- Não tente salvar tantas pessoas de uma vez, as vezes, seu barco tem um limite. Respeite seu limite.
Ele se levantou, pagou a água e saiu caminhando porta a fora com calma emanando uma luz metafórica. Então Jarbas falou.
- Senhor? Está tudo bem? Você se levantou e começou a falar sozinho, estava vendo alguém?
Então me liguei que o quer que tenha sido, poderia não ter sido real. Uma alucinação dentro de um bar? Talvez.
Todavia quem quer que tenha sido, acalmou as borboletas do meu estômago, e de quebra, me deu uma coisa que não tinha pensado ainda. Resolveu meu problema - quase um milagre - fiz como ele tinha dito: paguei a conta, comprei um livro na livraria - que depois descobri que era um sebo - e fui para casa comprar uma passagem para o local que minha família morava, sentia falta deles, porém não queria aceitar isso. Eu agora era diferente, era melhor.

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