quarta-feira, 8 de julho de 2015

Só por uma noite

Eles disseram para eu correr para debaixo do rabo da saia da minha mãe. Sabiam que tinha medo, eu tremia toda, dos pés à cabeça.
Quando toquei no vidro verde da janela do cemitério, o silêncio tomou conta do meu corpo e do ambiente etéreo e sinistro - como sempre eu temi -. Mas graças aos meus problemas de foco me salvaram e pude respirar um pouco aliviada, até lembrar que ela, minha querida mãe, não vivia mais e tinha que ser forte, porém não conseguia. Achava que não conseguia.
Ouvia sinos e risadas tristes naquela noite de verão quente com chuvas rápidas e fugazes, que não chegavam a alagar nem as menores das poças, quando vi minha mãe pela última vez. E eu ouvi a voz dela, tão clara como o dia:
Você tem que ser forte, Helena. Só por uma noite!
Então ela adentrou na sala para nunca mais sair. Se não fosse pelo ambiente branco e o cheiro de desinfetante eu saberia que tiveram muitos mortos naquele lugar, afinal era um hospital.
Temia a morte. - acho que sempre temi, na verdade - Vivi poucas e boas com minhas amada mãe e ela me ensinou valores que hoje passo para você. Podem não ser de tanta importância para você, não obstante ainda ajudam àqueles que desejam ouvir uma palavra.
Os dias que transcorreram foram sem brilho. Visitava todos os dias o cemitério. O coveiro já me conhecia e me cumprimentava cordialmente todas as vezes sabendo que não podia me tocar, mas mesmo assim a vida continuava cinza e sem graça porque não ria mais.
Até um dia entrar naquela loja de conveniência do cemitério para comprar um isqueiro, para acender uma vela para minha mãe e conheci Oscar naquele dia.
Um homem espirituoso e devoto do bem. - pelo menos foi o que pareceu. - Quando decidi o isqueiro que compraria ele me informou que a marca não era muito boa. - mencionou algo sobre ter fumado no colégio - E me sugeriu uma boa marca. Acatei o pedido e comprei, os dias passaram e começamos a nos falar, ele caminhava entre as lápides sempre às 15h e sempre nos encontrávamos - inclusive em dias chuvosos, porque ele trabalhava ali e aquele era o horário de almoço dele.
Quando ele me convidou para um encontro, já tinham passado alguns meses depois da morte na minha mãe. Relutei e aceitei. - mesmo que no dia seguinte me arrependesse.
Dias depois do primeiro encontro, ele segurou minha mão para me beijar, mas eu corri igual a uma menina do colegial assustada. - muito assustada. Queria o rabo da saia da minha mãe.
Na mesma noite deste último evento, sonhei com minha mãe, usando um vestido brilhante e dourado, sorrindo afavelmente para mim e parada no meio do corredor que era do antigo colégio que estudei na minha época de colegial. E depois de abraçar a perna dela ouvi alto e claro como como o dia.
Você tem que se concentrar, você tem que ser forte, Helena. Só por uma noite!
E acordei.
No dia seguinte, encontrei com ele e depois de agir como se não tivesse acontecido nada, ele segurou minha mão para pedir desculpa. E eu o beijei feliz. As nuvens abriram no céu e respirei aliviada por saber que minha mãe tinha razão. - elas sempre têm.
Fui brava, fui forte, fui eu mesma e feliz fiquei. Dali em diante continuamos vivendo nossos dias juntos esperando que as coisas mudassem.

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